> As parábolas de Jesus

Pregação trechos

Jesus não usou histórias  com o objetivo de entreter os ouvintes.  Muitas vezes, as parábolas  foram a principal forma de Jesus anunciar  a sua mensagem. Mais do que ilustrar, as suas parábolas  podem ser vistas como breves sermões. Cada uma traz uma verdade que é levada à consciência do ouvinte através  da cena narrada. A atenção  é despertada  pela confrontação  dramática  com uma verdade sobre a relação de Deus com o ser humano. Cada parábola,  como um sermão, carrega uma mensagem única e requer uma resposta  simples.

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> Livro 22: Pregação em primeira pessoa

Dica de leitura 03

A “pregação narrativa” ou “pregação em primeira pessoa”  tem sido uma das “bandeiras” de pregadores e homiletas há várias décadas.  Segundo eles, é ela quem adequadamente pode liberar a voz divina das Escrituras, já que boa parte dela tem a formação narrativa.  Dois livros desta linha já foram apresentados neste blogue:

https://creativando.wordpress.com/2013/01/22/livro-16-pregacao-narrativa/
https://creativando.wordpress.com/2013/01/12/livro-09-comunicando-a-palavra-na-primeira-pessoa/

ImagemO livro deste post também foca esta formação: First-Person Preaching – Bringing New Life to Biblical Stories (“Pregação em primeira pessoa – Trazendo vida nova às histórias bíblicas”).  O autor é Daniel L. Buttry.  Foi publicado em 1998 pela Judson Press, dos Estados Unidos.  Tem 116 páginas.

Butrry é econômico ao fundamentar a pregação em primeira pessoa: são apenas cerca de duas dezenas de páginas.  Nos cinco capítulos desta parte do livro, ele comenta sobre os seguintes temas: A história na Bíblia; O poder do drama; História e drama em um sermão; Escrevendo e pregando sermões em primeira pessoa.

Já na segunda parte do livro, o autor é bem mais generoso, até porque ocupa cerca de 70% do livro.  Ele traz 10 sermões na formatação narrativa.  Alguns dos personagens bíblicos são Tomé, Pilatos, Zaqueu e Elias.  Cada um dos sermões é seguido de breves comentários sobre questões relacionadas à mensagem.

No “Epílogo”, Butrry oferece alguns breve porém importantes lembretes ao pregador.  Ele lembra, por exemplo, que algo crítico na pregação é a unção do Espírito Santo.  Ela é vital em qualquer formato de sermão.

> Livro 21: Um espelho para a Igreja

Dica de leitura 03

O que você conhece sobre a história da pregação (ou homilética)?  Como eram as pregações nos primeiros séculos do Cristianismo?  Como elas moldaram a pregação nos séculos subsequentes?

A Mirror for the Church – Preaching in the First Five Centuries pode ser um valioso livro pra responder a estas perguntas, e a muitas outras.  Ele foi escrito por David Dunn-Wilson e publicado pela editora norte-americana Eerdmans em 2005.  São 224 páginas de história da Igreja Cristã e sua interpretação.

O livro segue a cronologia do Cristianismo e foca os principais expoentes de cada período, segundo a sua própria classificação.  Assim, no Capítulo 1 ele fala de “nenhuma pedra sem ser revirada” e chaImagemma os proclamadores da Palavra como “os missionários”.

O Capítulo 2 foca a pregação pastoral e o surgimento dos sermões escritos.  O trabalho dos “proclamadores” era essencialmente pastoral, fortalecendo e instruindo as novas igrejas (“congregações”) que estavam surgindo.

A partir do Capítulo 3, o autor começa a abordar o trabalho dos líderes que vieram após os apóstolos.  Aborda os pregadores, seus sermões e seus ouvintes.

No capítulo 4 são apresentados os chamados “apologetas” ou “defensores da fé”.  Entram em cenas personagens como Clemente de Alexandria, Teófilo de Antioquia, Jerônimo, Orígenes e vários outros.

O Capítulo 4 é dedicado aos pregadores chamados de “ascetas” e “místicos”.  Após comentar sobre o crescimento do misticismo ascético na Igreja Cristã, Wilson aborda a realidade das igrejas e seus pregadores de três regiões: Egito, Síria e Mesopotâmia.

“Coro de Anjos” é o título do Capítulo 6.  Aqui, o autor analisa os pregadores aos quais chama de “liturgistas”.

O Capítulo 7 apresenta outra série personagens importante do Cristianismo, como Basílio de Cesareia, Gregório de Nissa, Hilário de Poitiers, etc.  Eles são chamados de pregadores “teólogos”.

O último Capítulo traz os pregadores que, na visão de Wilson, podem ser chamados de “homiletas” e “persuasores agradáveis”.  Os principais teólogos considerados são Ambrósio, Agostinho de Hipona e João Crisóstomo.

O livro é muito bem documentado.  São centenas de citações e referências bibliográficas, organizados de acordo com o conteúdo dos capítulos e separados em fontes primárias e fontes secundárias.

O título do livro – Um espelho para a Igreja – é sugestivo e próprio.  O autor faz um cuidadoso e vasto levantamento das bases que ergueram e disseminaram a pregação cristã.  Cada período da Igreja abrigou teólogos que procuraram incluir em suas pregações questões pontuais que afetavam os cristãos da época.

> Livro 18: Os ventos da pregação

Dica de leitura 03

NOTA: Este post acerca do livro Choosing to Preach (“Escolhendo pregar” – veja os dados bibliográficos no final do post) é bem mais extenso do que o habitual deste blogue.  Na verdade, trata-se de uma síntese que foi incluída no meu livro Pregação Criativa (capítulo 3).  Para se ter uma noção mais adequada da ideia do autor é preciso um espaço maior.

Kenton C. Anderson é um dos expoentes atuais da homilética norte-americana.  Uma das suasImagem preocupações tem sido o mapeamento das tendências homiléticas mais modernas e a sua aplicação no cotidiano do pregador.

Em um dos seus artigos[i], Anderson apresenta de forma sucinta e em termos gerais as tendências homiléticas atuais, especialmente em termos de conteúdo.  Faz uso, para isso, da analogia de um mapa.  Assim como um mapa atualizado é muito mais seguro e útil do que um antigo,  mesmo que ambos descrevam a mesma área geográfica, também para a pregação há necessidade, segundo Anderson, de um mapa homilético para os dias atuais. .[ii] 

Anderson sugere que, assim como um mapa de um país, o mapa da pregação pode fazer uso dos pontos cardeais – Norte e Sul, Leste e Oeste.  Esses pontos oferecem uma visão geral dos quatro principais territórios homiléticos existentes.  No Leste e no Oeste estão dois polos homiléticos: o processo dedutivo e o processo indutivo.  Eles têm a ver sobre a origem da pregação e a sua finalidade.  O sermão dedutivo tem o objetivo de levar o ouvinte a se submeter em fé a um Deus transcendente que se revela, cuja  revelação é a verdade suprema.  Já o sermão indutivo está preocupado com soluções; seu objetivo é ajudar o ouvinte a encontrar caminhos divinos para resolver problemas do cotidiano e a responder a necessidades particulares.

Os pontos Norte e Sul são, respectivamente, cognição e afeição.  Eles determinaram  como o sermão será estruturado para alcançar o seu objetivo.  O sermão cognitivo procura explicar os conceitos e ideias através da razão e da lógica, a fim de que o ouvinte chegue a um determinado nível de compreensão.  Já o sermão afetivo quer levar o ouvinte a uma experiência a respeito do conteúdo que é oferecido pela mensagem.

O objetivo principal na terra dos sermões cognitivos e dedutivos é a  proclamação.  O pregador leva o ouvinte a escutar e a se submeter à vontade de Deus em sua vida de fé.  A chave para esses tipos de sermões é a instrução na vontade de Deus.

Já os sermões afetivos e indutivos têm como foco principal a persuasão.  O pregador usa  narrativas, imagens e outros recursos persuasivos para levar o ouvinte a uma vida de submissão a Deus.  O fator crítico desses sermões é a motivação para inspirar os ouvintes a resolver seus problemas.  Embora todo pregador sempre esteja preocupado coma proclamação, instrução, persuasão e motivação, cada sermão terá um foco diferente, dependendo de onde se localiza (“habita”) no território homilético.

As pessoas tendem a habitar em territórios onde se sentem melhor.  Ouvintes que apreciam histórias tendem a viver em territórios indutivos e afetivos.  Mas eles também podem viver em outro território por razões teológicas.  É o caso daqueles que julgam que a submissão a Deus pela fé é um valor maior do que a busca de soluções para seus problemas cotidianos.  Outros habitam em algum território por simples hábito, porque foram criados nele.  Como o mapa homilético é feito de modelos, as fronteiras não estão fechadas.  O pregador ou o ouvinte pode residir em um território, mas também se sentir confortável no outro lado da fronteira.

Segundo Anderson, na terra dos sermões DedCog (Dedutivo-Cognitivo) residem os sermões declarativos.  Eles são utilizados por pastores que valorizam abordagens tradicionais na exegese bíblica.  Os pregadores e ouvintes desses sermões não querem “perder tempo” contando e ouvindo muitas histórias.  Os Dedcogianos são observadores e pensadores.

Já no território CogInd (Cognitivo-Indutivo) se encontram os sermões pragmáticos.  Através do texto bíblico, eles procuram resolver os problemas dos ouvintes.  Os Cogindianos são fazedores e pensadores.

Na terra dos pregadores IndAfe (Indutivo-Afetivo) moram os sermões narrativos.  Os pregadores  atuam como contadores de histórias.  Os Indafianos são fazedores e “sentidores”.  Já na terra dos sermões AfeDed (Afetivo-Dedutivo), os pregadores costumam pregar sermões visionários.  Tendo como inspiração os artistas, eles “pintam quadros” para motivar seus ouvintes a responder à verdade.  Os Afededianos são observadores e “sentidores”. 

Como nos territórios reais, as pessoas que vivem nos territórios homiléticos podem ser bairristas.  Os Indafianos, por exemplo, podem se sentir superiores – ou inferiores – aos Decogianos.  Mas um território não anula a existência do outro. Ao contrário  coexistem como vizinhos e não disputam o mesmo território.  Além disso, as fronteiras estão abertas.  Com certeza, a pregação cristã deve encorajar os ouvintes a se submeterem à vontade de Deus.  Mas isso não significa que a Palavra de Deus não tenha nada a dizer em relação aos problemas humanos.  De igual forma, segundo Anderson, seria tão válido explicar como experimentar a verdade da Palavra de Deus.  O fato é que um bom sermão é aquele que comunica a Palavra de Deus, de modo relevante, para ouvintes de diferentes territórios.

A partir dessa fundamentação inicial, Anderson aponta para quatro  estruturas básicas de sermões (além de uma quinta, como veremos), das quais podem derivar várias outras.  A seguir, apresento uma síntese de cada uma delas.[iii]

 1. O Sermão Declarativo

É composto de argumentos.  Como um advogado que defende uma causa, o pregador apresenta os fatos de forma ordenada e da maneira mais convincente possível.  Essa estrutura dominou boa parte dos modelos homiléticos no século 20 (e ainda domina em muitos círculos religiosos, especialmente os mais tradicionais).

Esse tipo de sermão é dedutivo em sua orientação, sendo antes uma apresentação de ideias prontas pelo pregador do que a descoberta delas pelos ouvintes.  Ele é mais cognitivo em sua forma, já que seu apelo é mais lógico do que emocional.  Ele surge, segundo Anderson,

 da ideia de que o ouvinte escuta o sermão assim como ele é apresentado.  Esse tipo de sermão é aceito como sendo uma palavra da parte de Deus que todos devem obedecer.  Ele tem apelo para os ouvintes que apreciam argumentos e respeitam a verdade objetiva.  Pregar um sermão declarativo significa instruir os ouvintes no caminho em que devem andar.  A principal preocupação é que o sermão seja claro, pois a mensagem precisa ser compreendida.  Se a mensagem é vista como lógica e verdadeira, ela será inerentemente persuasiva. Abordagens criativas para a apresentação não são estritamente necessárias.  O Espírito Santo irá operar poderosamente para aplicar a verdade assim como ela é oferecida.[iv]

 O Sermão Declarativo tem uma estrutura relativamente simples.  Após a introdução, o tema é desenvolvido por meio de múltiplos pontos até o desfecho ou conclusão.  Os pontos do sermão são as razões ou premissas que, combinadas, devem produzir uma sólida argumentação.  Tais  pontos podem ser ilustrados e devem ser aplicados.  O fluxo dos vários elementos da estrutura é determinado por transições.

Devido à natureza dessa estrutura, o pregador costuma escrever todo o sermão.  Alguns utilizam o manuscrito no púlpito , enquanto outros preferem usar apenas algumas anotações.  Poucos se arriscam a pregar livremente.

2. O Sermão Pragmático

A  estrutura pragmática de sermão começou a popularizar-se,  nos Estados Unidos,  nas últimas décadas do século 20.  Neste modelo, a pregação  segue os passos de um detetive que tenciona resolver um caso policial ou descobrir um mistério:  “Como um detetive, o pregador pragmático atua para decifrar mistérios para os ouvintes.”[v]  O sermão começa com uma necessidade do ouvinte, conduzindo-o para uma solução. A mensagem ganha um caráter indutivo, a saber, começa com informações isoladas em busca de um sentido geral.  São comuns, na pregação pragmática,  temas como desemprego, problemas de relacionamento, incertezas espirituais, entre outros.  Os sermões podem ter títulos como “5 maneiras de…”, ou “7 leis espirituais para…” ou “Como ter sucesso na vida espiritual”.  A estrutura  como no sermão declarativo,  cognitiva, pois está focada no conhecimento.  O pressuposto é simples: se o ouvinte puder aprender a pensar corretamente, então ele também poderá viver corretamente.

Sermões não são peças de ficção.  Quando pregamos, estamos falando sobre os nossos problemas, os mistérios que nos afligem.   O processo nos envolve porque desejamos compreender as soluções que Deus tem para as nossas questões.  Quando o sermão termina, somos nós os que podemos viver felizes segundo a verdade que nos foi mostrada.  Tendo ouvido a voz de Deus, somos capazes de sair e realizar o que ele disse.  É o nosso mundo que estava quebrado e o nosso mundo que foi consertado – pelo menos,  em certa medida.[vi]

 Como se pode notar, a ênfase primordial do sermão pragmático está na agenda do ouvinte.  Comparado ao sermão declarativo, ele percorre o caminho inverso:  começa na aplicação e retrocede para os princípios cognitivos que motivam a mudança requerida.  O pregador precisa ser um bom intérprete da realidade na qual vivem os ouvintes – e, talvez, ele próprio.  Eventualmente, a percepção da necessidade humana pode aflorar de um texto bíblico.  De qualquer forma, as “pistas” para resolver o “mistério” estão nas Escrituras.  O pregador usa a Palavra para encontrar orientações específicas para a questão em foco.

3. O Sermão Narrativo

O chamado sermão narrativo tem a sua origem na Nova Homilética dos anos 70 do século 20.  Nesse modelo, o pregador constrói a sua mensagem como narração de uma história.  A mensagem não segue uma estrutura linear, mas apresenta uma sucessão de “cenas” que vão compondo a narrativa.  A história é o elemento formativo do sermão, e não meramente coadjuvante.  No sermão tradicional, as ilustrações kwefjkqeweram utilizadas para dar um caráter pictórico a determinada proposição. No sermão narrativo, a história é central ou essencial.[vii]

Esse tipo de estrutura é, por natureza, indutiva, pois a descoberta das verdades normalmente emerge de imagens e experiências de vida.  A história permite que o ouvinte se envolva intelectual e emocionalmente no desenrolar do enredo e, consequentemente, na “descoberta” da verdade. 

Os pregadores narrativos normalmente iniciam o sermão com um texto bíblico, no qual identificam o seu foco.  Todavia, esse texto não precisa ser de caráter narrativo.  Segundo Anderson, “todo o texto na Escritura oferece uma história, pois cada parte da Bíblia é ambientada em história humana real.  A Bíblia é sobre pessoas.  Ela não é um documento abstrato.”[viii]

A narrativa, no entanto, não precisa ser necessariamente uma reprodução exata da história bíblica.  Eventualmente, um episódio bíblico pode ser recontado em um contexto atual ou, ainda, uma história contemporânea pode ser utilizada para apresentar um conteúdo bíblico.

O sermão narrativo também precisa concluir com uma aplicação.  Ao contrário do que ocorre em sermões de estrutura cognitiva, que requerem aplicações concretas da verdade proclamada, a aplicação, no modelo narrativo, é feita em termos descritivos da vida do ouvinte.  A história do ouvinte, não a aplicação de um conhecimento adquirido, está em foco no sermão narrativo.  A aplicação é a história dele – na medida em que a narrativa bíblica é também a narrativa de sua própria vida –  encorajando-o a agir de acordo com a vontade de Deus.  É o ouvinte que, em sua vida, dá prosseguimento ou conclui a narrativa.

 4. O Sermão Visionário

A quarta estrutura de sermão é a que Anderson chama de “visionária”.  É o sermão que “pinta um quadro” da verdade através das palavras.  Ele explica a imagem da pintura aplicada ao pregador visionário da seguinte maneira:

 Como um pintor, o pregador visionário vive na intersecção da dedução e da afeição.  Ele vem e apresenta ao ouvinte uma ideia principal, uma mensagem que irá mudar a sua vida.  Ao contrário do pregador declarativo, contudo, esse pregador escolhe comunicar a sua mensagem por meio de uma poderosa visão de um futuro alterado sob o senhorio de Deus.  Ele pinta um quadro que conduzirá o ouvinte-expectador  à compreensão da mensagem.  Tendo sido exposto à visão, o ouvinte precisa lidar com o que viu.[ix]

 O sermão visionário procura se enquadrar em um ambiente social pós-moderno.  Por isso, tenta levar a voz de Deus aos ouvintes através de uma atmosfera multissensorial.  Palavras ainda estão presentes, mas o ouvinte é levado a uma experiência que vai além da mera recepção auditiva.  O pregador procura utilizar uma série de veículos como testemunhos, artes visuais, silêncios, objetos, cheiros e até mesmo expressões tácteis.

A “pintura” é planejada e preparada em um estilo dedutivo.  Um texto bíblico precisa ser escolhido e compreendido.  A ideia principal precisa ser encontrada.  Todavia, o objetivo não é formular uma série de proposições, mas “expor” o ouvinte a um processo de resposta e interação.  A função do pregador, segundo Anderson,  seria mais a de criar maneiras para liberar a voz de Deus, e não tanto a de agir como portador dela.  O pregador, por assim dizer,  é o portador  que empresta sua própria voz à proclamação da Palavra de Deus.  A pregação, como anúncio da Lei e do Evangelho, é um chamado ao arrependimento e à fé que o próprio Deus dirige ao ouvinte pela instrumentalidade da voz do pregador.

O formato  visionário oferece formas tangíveis para que o ouvinte possa responder de forma ativa.  “O final do sermão deve oferecer uma visão do que como a vida pode parecer agora que vimos um quadro do que Deus quer. Agora sabemos o que iremos fazer.”[x]  O ouvinte foi exposto ao chamado de Deus, ao qual deve responder com arrependimento e fé, com apego à palavra de consolo, com obediência aos mandamentos de Deus, como frutos de arrependimento, conforme o conteúdo do texto bíblico e da respectiva pregação.

 5. O Sermão Integrativo

O mapeamento homilético sugerido por Anderson inclui, além das quatro estruturas primárias vistas acima, uma quinta estrutura que reúne todas em um só modelo – o integrativo.

O sermão integrativo é tanto dedutivo como indutivo e apela tanto para a cognição como para a afeição.  Segundo Anderson, “o seu foco não é um determinado grupo de pessoas, mas espera oferecer algo para cada pessoa, em sua dimensão integral. É uma forma holística de pregação, que fala à pessoa toda ao mesmo tempo.”[xi]

A fim de explicar o seu modelo, Anderson o compara ao contexto musical:

 Na música, um meio afetivo (a música) é dado de forma dedutiva (a composição), a fim de expressar ideias cognitivas (a letra) por meio de expressão indutiva (a execução).  O Sermão Integrativo combina esses elementos para produzir uma pregação que combina um argumento lógico (cognição-dedução), um mistério subjacente (cognição-indução), uma história humana (indução-afeição) e uma visão motivadora (afeição-dedução).[xii]

 Tais elementos,  que compõem a pregação integrativa,  podem ser explicados, de maneira sucinta, como segue: – O “argumento lógico” se refere ao conteúdo intelectual que é sugerido pelo texto bíblico.  O sermão deve comunicar a verdade pretendida pela Palavra de Deus nessa passagem bíblica específica.

– O “mistério subjacente” é o contexto no qual o ouvinte tenta alinhar suas pressuposições com a verdade de Deus.  Por “mistério” deve-se entender o que o ouvinte ainda não conhece ou compreende.  Essa “apropriação” da verdade de Deus precisa ocorrer, pois ideias sem dono são meras abstrações.

– A “história humana” se refere ao momento do sermão em que acontece a experiência de vidas que estão entrando “em termos” com Deus através da sua Palavra.  É a “personalização” do texto bíblico, que pode estar tanto nas Escrituras como em meio à multidão.  “A Pregação Integrativa irá ganhar vida e poder na medida em que a mantemos em seu contexto humano inerente.  A Bíblia é pessoa, não estéril. É um documento vivo sobre pessoas reais e a vida real.  Assim precisa ser a nossa pregação.”[xiii]

A “visão motivadora” é o momento em que o pregador motiva o ouvinte em direção ao propósito de Deus para a sua vida.  É a tradicional “aplicação” do sermão. 


[i] Anderson, Kenton C. “Mapping the Landscape of Preaching Today”. Disponível em: >http://www.preaching.org/features/display_feature/16<  Acessado em: 2 jan 2007.
[ii] Segundo Anderson, na história da pregação sempre foram elaborados “mapas” homiléticos.  Um dos mais conhecidos é o mapa proposto por John Albert Broadus, em 1870, dividindo os tipos de sermões existentes entre “textuais”, “tópicos”, “textuais-tópicos” e “expositivos” (ou “expositórios”).  Estes formatos dominaram o cenário da pregação e ainda resistem aos ventos de hoje.  Boa parte das pregações cristãs está baseada nestes modelos, ainda que com algumas inovações.
[iii] Anderson, Kenton C. Choosing to Preach A Comprehensive introduction to sermon options and Structures.  Grand Rapids: Zondervan, 2006.Verifique especialmente a segunda parte – Structures, pp. 127-261. Nesse  livro, o autor apresenta mais detalhadamente o mapa homilético referido no artigo (ver nota 7, acima.
[iv] Ibid., pp. 139, 140.
[v] Ibid., p. 161.
[vi] Ibid., p. 163.
[vii] Veja o Capítulo 25.  Veja,  no Capitulo 9, informações sobre a estrutura básica de uma história.  Veja também os Capítulos 13 e 14 para mais detalhes sobre o sermão com estrutura narrativa.
[viii] Anderson, Choosing to Preach, p. 198.
[ix] Ibid., p. 219.
[x] Ibid., p. 227.
[xi] Ibid., pp. 235, 236.
[xii] Ibid., pp. 242, 243.
[xiii] Ibid., p. 249.

Ventos

Em variados níveis, a pregação foi passando por novos olhares e novos ventos ao longo dos anos. Hoje, a homilética ainda está largamente condicionada pela profusão de ventos que começaram a soprar no final dos anos 60 do século 19. Embora o sistema pragmático dedutivo, “tradicional”, ainda resista, muitas opções sermônicas são praticadas.

Os novos ventos homiléticos podem ser seguidos, ou não. Não existe forma retórica perfeita. Mas o fato é que eles existem e abrem novas possibilidades para a criatividade e a variedade na pregação. O pregador precisa estar consciente dessas possibilidades de levar a voz de Deus aos ouvidos das pessoas, também sempre condicionadas por ventos de mudança.(djj)

Ventos de mudança

Vento de Mudança é o título em português de uma das baladas mais conhecidas da musigrafia do rock mundial – Winds of Change, gravada pela banda alemão Scorpions, em 1990.  “Ventos de mudança” sussurravam pela Europa quando o vocalista da banda, Klaus Meine compôs a canção.  Pouco tempo depois veio a derrocada da União Soviética e ela se transformou em uma espécie de profecia e ícone das mudanças políticas que se sucederam. 

O vento da mudança também sopra no território da Homilética.  Mesmo que eventualmente possa ser nada além de uma brisa suave. 

Houve vento de mudança em diversos períodos da história da pregação (como será indicado de passagem em outro capítulo).  O vento (na verdade, ventos) mais forte e duradouro começou a soprar nos anos 60 do século passado, especialmente nos Estados Unidos.  Ele recebeu vários nomes, mas ou mais conhecidos são Nova Homilética, ou Homilética Pós-Moderna.

Generalizando, este vento trouxe uma variada gama de novos elementos para dentro da teoria homilética.  Além de reafirmar técnicas criativas já grisalhas, trouxe novos formatos de sermão, como o sermão narrativo, o sermão história, e vários outros.

Uma das primeiras coletâneas – se não a primeira – destes formatos foi Pregação Experimental, publicado em 1973.[i]  Este livro mostra com clareza a mudança de paradigmas.  Uma mudança radical.  (djj)


[i] John Killinger, ed  Experimental Preaching. Nashville: Abingdon Press, 1973. Killenger publicou um segundo volume dois anos mais tarde: The 11 O’Clock News & Other Experimental Sermons. Nashville: Abingdon Press, 1975.