> Livro 07: Deus tem algum problema de comunicação?

Dica de leitura 03

É o que parece sugerir Chester Pennington, em seu livro God has Communication Problem – Creative Preaching Today.  Ele foi publicado em 1976 pela editora Hawthorn Books, de Nova York.
Este livro é emblemático porque, na época em que foi escrito, estavam começando a “fervilhar” questões que até anos antes não recebiam grande atenção dos teóricos da homilética, especialmente o sermão como um evento criativo e comunicativo (aliás, assunto não “resolvido” até hoje em certos51RIFRD761L._SL500_ ambientes acadêmicos).
O que Pennington propõe em seu livro nunca antes havia sido feito com tal argumentação e detalhamento.  Por esta razão, em meu juízo, ele é um dos maiores, se não o maior, marco a transição em termos teóricos na área de homilética que aconteceu especialmente nos anos 1980.
A homilética – ou a pregação, em sentido amplo – não acontece em um vácuo.  Se a pregação é a contextualização da Palavra de Deus para o ouvinte de hoje, naturalmente ela precisa ter a percepção de qual é o seu “público-alvo”, para ampliar sua eficácia em termos de comunicação.
O autor inicia o livro afirmando a centralidade da pregação na vida da Igreja – na verdade, o compartilhamento da Palavra de Deus para crentes e descrentes.  (Daí a sugestão do termo “comunicação”, pois traz em sua origem o sentido de “tornar comum”, “compartilhar”.)
A partir do segundo bloco, ele inicia sua “revolução” (lembre-se da data de publicação!), abordando a pregação como um evento comunicativo e, em seguida, como um evento criativo.
Para Pennington, as teorias da comunicação podem ser importantes aliados da pregação. Por esta razão, ele dedica um capítulo (oito) apenas para analisar a pregação como uma instância de comunicação.  Alguns dos temas tratados são: Pregação e informação; Pregação e credibilidade; Pregação e recepção.
O “problema” de comunicação de Deus pode ser o pregador.  Por esta razão, ele precisa sempre buscar os meios para ser um melhor comunicador do Evangelho.

Trecho: “Podem existir diversas razões porque deixamos a igreja sem um sentido claro sobre o que o pregador quis dizer.  Uma é que os próprios pregadores podem não terem tido certeza do que queriam dizer.  Alguns sermões que ouço me convencem que o pregador não definiu claramente o propósito e o tema… Uma comunicação eficaz requer um propósito claramente indicado.  E isto, por sua vez, requer o trabalho cuidadoso do pregador.” (pág. 65)

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Os títulos da pregação

O título da pregação ou do sermão é a menor porção textual que o pregador utiliza para expressar a tese (idéia ou pensamento central/principal) da sua mensagem. É a “manchete”. Também pode ser chamado de tema ou preposição. Popularmente é chamado de “assunto”.
Elaborar bons títulos para os sermões é uma necessidade e uma arte a ser continuamente aprimorada na pregação. Assim como a capa de um livro ou a primeira linha de um anúncio, o título da mensagem deve (deveria) captar a atenção e, preferencialmente, indicar o rumo da mensagem.
Como pastor-pregador, eu já sabia da importância da importância desse cuidado. Mas creio que poucas vezes fui além do óbvio (tipo: Trabalhe pelo pão que é eterno ou Não tenha medo de testemunhar). Não que existisse algo errado ou absurdo com os meus títulos, pois sintetizavam bem a idéia central do sermão. A sensação que eu tinha é que eles eram mecânicos demais, previsíveis demais. Eles comunicavam a idéia, mas não chamavam a atenção, não apelavam para a imaginação. Somente fui convencido de que deveria prestar mais atenção aos títulos mais tarde, sentado em salas de aula do curso de Jornalismo, em cadeiras de redação e de marketing.
(djj)

A ação do Espírito Santo

Ou seja, quando se fala em comunicação, criatividade e variedade na pregação, não se pretende reduzir o evento a ações resultantes apenas da atuação do pregador. É sempre preciso reafirmar que a ação de Deus independe da humanidade do pregador no sentido de ser eficaz.  Também é preciso reafirmar o papel vital que o Espírito Santo executa neste processo. 
A proclamação cristã não é apenas o repassar de um evento que aconteceu na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo.  Não são palavras humanas, pontos de vista de alguém.  Não são conceitos filosóficos abstratos, mas boa notícia, fatos divinos.  Deus fala e atua através do Evangelho.  A Palavra de Deus que você veicula é o discurso do próprio Deus; ele está sempre presente quando você fala; é sempre a Palavra que procede da sua boca. (djj)

Criando e recriando na pregação

Criatividade na pregação tem a ver com o como a criativa Palavra de Deus é proclamada e aplicada.  Ela objetiva, além de colaborar na exposição de uma idéia ou conteúdo, obter e reter a atenção do ouvinte.  Antes que a Palavra de Deus possa provocar transformação no ouvinte (basicamente salvação ou santificação), é necessário que ele se interesse, ouça, escute, preste atenção, esteja predisposto, permaneça com o pregador. 

A proclamação da Palavra de Deus, além de correta e ortodoxa, deve ser veiculada com palavras vivas, embaladas com energia e vigor, gostosas de serem ouvidas e fáceis de serem entendidas.  Grindal diz que a linguagem da pregação precisa ser, se não eloqüente, pelo menos “interessante o suficiente para atrair os ouvintes… e verdadeira, para direcionar a atenção do ouvinte do pregador para a Palavra [de Deus]…”[i] Ou seja, a comunicação eficaz do Evangelho também passa em tornar a mensagem atrativa para os ouvintes.

A mensagem bíblica sempre é criativa. Ela cria – fé, salvação, vida santifica. A Palavra de Deus age, atua. Ela tem poder. A encarnação de Jesus, a mensagem suprema de Deus, foi colocada em termos de Palavra, de Verbo (cf. João 1).  Jesus é a proclamação e- e ação de Deus em favor dos seres humanos.

A criatividade é intrínseca à pregação. Através dela Deus continua criando hoje. Por isso, o pregador deve criar as condições adequadas para que a ação de Deus aconteça com todo o vigor possível na vida dos ouvintes. Através dele Deus quer falar com eles.


[i] Grindal, Gracia. Preaching the Word in Good and True Words.  Word & World, v. X, n.º 3, verão de 1990, pp. 237-246